Da Cuiabá dos ancestrais guerreiros até os nativos contemporâneos


Houveram inúmeros grupos indígenas de diferentes etnias nas terras que hoje formam Mato Grosso. Em Cuiabá, além dos Guaicurus e os Paiaguás outros também foram extintos em batalhas ou dispersos pelos conflitos com bandeirantes. Os Bororo estão entre os poucos que resistiram e ainda resistem às guerras territoriais. O começa hoje (9) uma série de reportagens especiais sobre Cuiabá, que chega aos 300 anos em 8 abril. A cultura da cidade tem forte influência indígena.

Ilustrados como guerreiros ágeis e excelentes escaladores, mergulhadores, habilidosos com lanças, arcos e flechas, alguns Bororo resistiram ao processo de "pacificação", outros aparentemente passaram a ceder sem tanta resistência. Os indígenas mais bravos eram capturados e aprendiam a língua dos brancos para auxiliar neste processo.


Outros, migravam de tempos em tempos por Mato Grosso, seja pelos costumes ou porque foram forçados a recuar nos atritos. Além de todos os elementos da natureza, considerados sagrados pelas diversas etnias, a água para os Bororo era mais do que necessidade básica e de sobrevivência.


Ela estava presente nos principais rituais. Por isso, em muitos casos, quase sempre eles se posicionavam próximos aos rios.


Para a pesquisadora da Unemat, Marli Auxiliadora de Almeida, o contato entre os Bororo e os colonizadores se iniciou com os paulistas descendentes de europeus, nomeados bandeirantes, mas é preciso se atentar até às figuras indígenas que serviram como ponte entre os índios e os exploradores. "Em alguns casos, os índios mais fortes eram presos para servir de exemplo para que os outros se rendessem", comenta Marli.


A historiadora também ressalta que o processo nomeado como pacificação tinha métodos como a catequização e inserção das crianças indígenas nas escolas de formato ocidental. Os bandeirantes não reconheciam os indígenas enquanto civilização que, apesar de ser diferente deste formato, tinham os próprios costumes, sabedorias, crenças e regras. "Todo este processo dito como pacificação era violento. Além de colocá-los dentro desse formato ocidental, tentando amansá-los, também os inseriam em atividades domésticas", reforça.


Marli é autora de mestrado onde analisa a índia Rosa Bororo, capturada aos 24 anos e que participou de sua última expedição em 1886.


Rosa Bororo, a índia usada para "pacificação" dos Bororo em Mato Grosso


Os Bororo foram usados como guerreiros nas lutas contra outros grupos indígenas e, na ocupação de outras terras. Fato este que ocasionou a dispersão e divisão da população deste grupo - que passou a ser dividido em três subgrupos da mesma etnia, sendo eles, o da Campanha, Cabaçal e Coroado.


Na segunda metade do século 19, fazendeiros e viajantes buscavam por ouro. Em contraponto, dos subgrupos Bororo, os Coroado ainda resistiam ao contato. "Realizei uma pesquisa sobre Rosa Bororo, que foi levada de seu grupo e ensinada à língua dos brancos. Após esse momento, ela não retorna mais à sua origem. Talvez, com medo de julgamentos dos seus. No entanto, apesar de ser usada nesse intermédio, ela também joga com os brancos. Em alguns momentos, atrapalha as negociações dando outras recomendações aos indígenas através de sua língua nativa", comenta Marli.


Há pesquisadores que ainda indicam que a figura do índio forçada como pacificador foi essencial para que o extermínio não fosse completo, seja dos indivíduos ou da cultura.


A descrição dos Coroado no relatório de Marli mostra a situação de indígenas que realizavam caminhadas nomeadas “correias”, tanto nas estradas próximas a suas aldeias como no Termo do Cuiabá. Os Coroado lutavam contra viajantes e fazendeiros, atitudes que justificavam, do ponto de vista governamental, a necessidade de aldear esses índios, conforme instruía o Regulamento das Missões de 1845.


Apesar deste regulamento estabelecer a falta de severidade como estratégia de contato, o combate armado aos Bororo Coroado continuava. A necessidade de adequar os Coroado à sociedade “civilizada” nos parâmetros de colônia forçaram o método de persuasão neste subgrupo até 1886 com pacificadores como Rosa.


Em 1886 foi a última excursão que ela se fez presente. Com isso, a figura de Rosa Bororo ou Cibáe Modojebádo, seu nome nativo, aparece na história como quem faz intermédio importante no contato com os índios Coroado e o homem branco.


Grupos que resistem e suas influências


Entre as possibilidades da origem do nome Cuiabá, está a palavra Ikuiapá. Esta, que é de origem Bororo e significa "lugar da ikuia". Ikuia, por sua vez, significa flecha-arpão, uma arma utilizada para pescar, feita de madeira.


O indígena e pajé Márcio Paromeriri relata que seus ancestrais também descreviam Rio Cuiabá como cristalino, com peixes imensos, e que usavam a ikuia para capturar o alimento. Paromeriri, além de pajé, também é presidente da Academia dos Saberes Indígenas do Brasil (ASI) e músico. Para ele, o indígena ainda é tratado apenas como folclórico e com uma imagem caricata que não condiz com à realidade, como se estivesse preso no passado.


O Cabaçal ainda salienta que, quem sabe a imagem mude, quando houver reconhecimento de que os indígenas são a pré-história, dentro do Brasil, que foram braços de trabalho e os primeiros "soldados" defensores deste chão. Nesta linha pontua que ainda há muito o que se discutir sobre o pertencimento indígena na cultura nacional e em Mato Grosso.


A educadora Adriana Duarte, que atua no Centro de Formação e Atualização dos Profissionais da Educação Básica de Mato Grosso (Cefapro), com foco em educação indígena, também salienta que há uma imensa dificuldade de alguns grupos desta etnia manter seus costumes.


"Além disso, muitos não conseguem mais realizar os rituais. Boa parte das aldeias perderam os mais velhos, os ancestrais que realizam os ritos, sem aprender a dar continuidade ou com devida qualidade de vida, não conseguem exercer como antes as atividades", reforça.


Há quem saia das aldeias para estudar. No entanto, é preciso uma preparação para que não sofram preconceito e também sejam respeitados em ambientes distintos dos que estão habituados. Outra questão é que escolas indígenas sejam criadas para que os jovens desses grupos não tenham a cultura apagada.


Em Cuiabá, no Centro Cultural Ikuiapá, coordenado pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), há um acervo de alguns objetos indígenas de diferentes grupos e etnias.


Eles, entretanto, estão acumulados em uma sala. Apesar da tentativa de funcionar enquanto museu, o projeto não teve sequência.


Os artefatos se encontram sem a devida identificação e catálogos. Alguns estão quebrados e em péssimas condições.


A conexão dos Bororo com à água e toda natureza


Alguns costumes como celebrações de meses em um único funeral revelam também a forte conexão com à água e os rios. "Para eles, a água é também uma fase do mito da origem. Após o corpo ser enterrado por meses, é sempre umedecido com ervas para entrar em estado de decomposição. Tempos depois, os ossos são levados para serem lavados no rio", revela Adriana.


Segundo a indigenista, a aldeia toda fica em silêncio, enquanto os ancestrais fazem cantigas para que o espírito se liberte do corpo e retorne à natureza. "Essa é apenas uma das celebrações que mais diferencia essa etnia das outras. O indígena, de uma forma geral, tem à natureza como sagrada. Porém, os Bororos têm uma maneira muito pura de levar à vida e de conceber o mundo. Nas aldeias, só as crianças podem entrar em todos os lugares", finaliza.







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