Em sebo físico e itinerante, casal colecionador vende grandes clássicos de vinil

​A efemeridade da obsolescência programada parece não ter atingido o quarto de uma casa no bairro Boa Esperança. O espaço, que pertence ao assessor Max Amorim, de 36 anos e Priscilla Figueiredo, de 30, é ocupado quase que inteiramente por uma vasta coletânea de discos de vinil, fitas cassetes, CDs e outros objetos que foram sonhos de consumo das gerações dos anos 70 a 90.


O casal de colecionadores começou com seu acervo pessoal ainda na infância. Priscilla, por exemplo, relembra que sua primeira memória em ouvir discos de vinil foi com seu primo, que era DJ na época, e era costume a família colocarem discos infantis pra “primaiada” ouvir. Já Max, atribui seu gosto pelos “bolachões” à veia hereditária: é filho de colecionador. Com ele, ouviu muito rock, como os clássicos do Rolling Stones e Beatles.




Para desembarcarem no universo do sebo de LPs, eles partiram de um princípio meio básico dos colecionadores: dar um jeito nos objetos repetidos, que já somavam 400 discos. Além disso, Priscilla herdou muita coisa da coleção da família. Atualmente, é difícil calcular o acervo deles –e quantos vendem -, mas eles contam que já chegaram a ter 5 mil LPs. O nome “Tchá por Discos” veio de um amigo inglês, que fez um trocadilho com o linguajar cuiabano. “Fomos pegando discos de amigos, que eles queriam se desfazer, de doações. Um dos caminhos para os discos são o lixo, e no lixo eu acho que não tem utilidade nenhuma. Pelo contrário, no lixo ele vai mais poluir o meio ambiente do que de fato ter algum tipo de valia. E foi isso, foi uma ideia interessante que a gente teve, juntou o amor pela música e um pelo outro”, conta Max. Outro motivo para abrir o sebo, é a mudança de comportamento com o objeto disco, que para muitos, tem um valor sentimental e nostálgico. Max explica que queria repassar o contato com essa mídia para uma geração nova, e atentar para a riqueza de informações disponíveis a partir de uma experiência com os LPs – a capa, formato, encarte e contexto histórico. “Essa mídia é muito mais fiel ao sonoro do que uma mídia digital. A mídia digital, na hora da compressão, na masterização, ela perde um pouco da qualidade. E aqui não, aqui é muito mais fiel. Porque quando o disco grava, se não cortarem na hora da mixagem, dá pra escutar muitas vezes coisas que eles falavam, até a respiração de alguns, mas isso vai da edição da música”, explica. O sentimento de desapego com os discos para algumas pessoas é tão forte, que Priscilla narra histórias até mesmo tristes de quem vai doar ou trocar com eles. Um caso é quando uma mulher, que procurou o casal assim que o pai morreu, pois deixou muitos discos. Entretanto, ela só teve coragem de doar os vinis após um ano. “Aqui em Cuiabá, geralmente, tem muita gente que se desfaz, aos poucos. Porque ainda tem aquele sentimento por aquele disco. Quem desapega é porque não quer mais ou alguma coisa que o impede, como não ter mais uma vitrola, por exemplo, ou está de mudança pra uma casa que não cabe”, conta Priscilla. “Cada um tem o seu tempinho de desapego”.


Quase como uma "sociedade secreta", em que os colecionadores têm mais discos que amigos, Max e Priscilla compram, revendem e trocam muita coisa, no Brasil inteiro. Nesses escambos, eles se deparam com raridades. Até mesmo um disco de 1940, intacto, foi encontrado por eles. Entre alguns achados, que não estão à venda, está o álbum branco dos Beatles, que completou 50 anos, o primeiro álbum da banda de hard rock Rush e os dois álbuns de 1969 de Gal Costa. Da coletânea do Tchá por Discos, encontra-se de tudo: rock, MPB, pop, músicas infantis e até mesmo o rasqueado de João Eloy. O público, segundo conta Priscilla, em suma é formado por um pessoal mais velho, mas ela já se surpreendeu em encontrar clientes de 10 a 12 anos. Eles já venderam até mesmo vinil de MPB no Japão, além de clientes mexicanos. As vendas, trocas e afins acontecem pelo Instagram, Facebook e ainda em uma feira itinerante que o casal organiza, a Roda Vinil.


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