CHAFARIZ DO MUNDÉU – Por Neila Barreto – Segunda parte (II)


No Mundéo, bairro da margem esquerda do Prainha referido pelo menos desde 1734, a partir de 1817 a Santa Casa da Misericórdia tornou-se referencial no espaço da ainda vila e logo em seguida cidade de Cuiabá. Cerca de quarenta anos depois, em 1858, teve início a construção do Seminário da Conceição, fronteando a Santa Casa, lugar de ensino secundário laico e de ensino religioso (BRANDÃO, 1991, p. 67).


Fontes e Chafarizes sempre foram preocupações dos governos municipais. Em 1831 códigos de posturas já disciplinavam o seu uso e a sua conservação:


(…) Artigo 69º – Todo aquelle, que tomar Fonte Pública, fazendo lapada particular, será multado em vinte mil réis pela primeira vez, e o Fiscal a fará restituir ao público pelos meios competentes, agravando-se a pena sempre em caso de reincidências. (…) He proibido o uso de lavar-se roupa nos Chafarizes, Bicas e Tanques Públicos (…). [1]


No ano de 1871 no antigo largo da Conceição – Mundeuzinho, no centro da Praça onde havia uma fonte de água foi construído um Chafariz, pelo Presidente da Província – Francisco Cardoso Júnior, com “um reservatório d’água no antigo quintal do Maranhão”, bem como um aqueduto para alimentação do chafariz do largo da Conceição (MENDONÇA, 1973, p. 281), atual praça Bispo Dom José, ou simplesmente Praça Bispo, que custou aos cofres da Província o valor de 7:989$ 630 réis. [2]


1872 – (…) fiz confeccionar, dar começo aos dois chafarizes com as respectivas caixas d’água e aquedutos nas imediações do Rosário e na rua da Misericórdia (Mundéu). Encarreguei dos serviços ao Comendador Henrique José Vieira, que iniciou a funcionar a 13 de junho último (dia tomada de Corumbá) cuja despesa não atingirá a seis contos de réis. Também foi cogitada a construção de um terceiro chafariz na Rua Barão de Melgaço, em frente à chácara de Francisco Alexandre Ferreira Mendes que não foi efetivado. [3]


As obras do Chafariz do Mundéu tiveram inicio em 28 de novembro de 1871 sob á orientação dos senhores Henrique José Vieira, Joaquim Alves Ferreira, presidente da câmara municipal de Cuiabá, Antônio Cláudio Soído e Joaquim Felicíssimo de Almeida Louzada e o inicio do seu funcionamento se deu em 13 de junho de 1872, conforme documentação pesquisada e referenciada neste texto.


Foi construído em ARQUITETURA COLONIAL, EDIFICADO TODO EM ALVENARIA, A FORMA DE UM SÓLIDO OTOGONAL DE BASE CIRCULAR, DE VÉRTICE REMATADO EM CONE RETO, TENDO AOS LADOS EM CHANFRADURAS ENTALHADAS NAS PAREDES, COM COLUNATAS ORNAMENTAIS, BICAS QUE MANAVAM FILETES DO LIQUIDO DERIVADO DO RESERVATÓRIO DO ‘MARANHÃO’, JORRANDO CONSTANTEMENTE EM BACIAS SEMICIRCULARES, FEITAS TAMBÉM DE ALVENARIA, ADEQUADAS À SERVIDÃO PÚBLICA. TAL COMO O CHAFARIZ DA CARIOCA, NO RIO DE JANEIRO, e foi orçado em 7:989$630 réis.


Como o valor orçado não era suficiente para a construção do chafariz os senhores responsáveis se cotizaram entre si para complementarem as obras.

Foto: sem autoria, Chafariz do Mundéu, Jornal Folha do Estado, Edição de 28.02.2002, Cuiabá.


Nesse ano o Chafariz do Mundéu era guardado por sentinela militar, o qual ficava em uma guarita. [4]Sobre o Chafariz do Mundéu, Firmo Rodrigues (2002) relembra:


Ao pé do morro da Igreja Bom Despacho, hoje Santa Casa, outrora vi o Chafariz do Mundéu, freqüentado por grupos de escravos sobrando latas, ou trazendo sobre a cabeça potes de barro para abastecer de água, uma boa parte da população.


As águas potáveis jorrantes do Chafariz do Mundéu eram captadas nas fontes naturais existentes no extenso quintal da Santa Casa de Misericórdia, antes denominado “Quintal do Maranhão”[5]


O Chafariz do Mundéu era,


(…) um ponto de reunião de escravos que, desde alta madrugada, iam encher de água latas e potes, os quais aproveitavam aqueles momentos para contar uns aos outros as agruras dos dias que viviam naquele regime de escravidão. [6]


Para o funcionamento do Chafariz do Mundéu, o Presidente Cardoso Junior construiu no quintal da Santa Casa de Misericórdia, um reservatório circular de mais ou menos 8 metros de diâmetro, com uma cobertura de telha. Esse Chafariz foi recuperado no governo de D. Aquino Corrêa (22.01.1918 – 22.01.1922).


E construção do Chafariz da Conceição, depois chamado do Mundéu se fez passar, por meio de poucas braças de encanamento de barro, a água que de longa data era oferecida à população numa modesta Bica de água na esquina, da atual Santa Casa de Misericórdia.


(…) Tendo de prompeto determinado o ENCANAMENTO DE BARRO e, consequentemente, desde logo seccado o Chafariz, que assim ficou reduzido a um monumento attestado a falta d água potáveis nesta capital, e achando-se deste modo o público privado da água deste muitos annos seria na referida modesta Bica muito (…) a câmara municipal, como diz em seu relatório, que o povo para prover-se de ágoa d`aquella Fonte no próprio Poço junto a sua nascente – Olho d`água – no lugar da antiga Bica, o qual tendo sido construída de tijolos e coberta de telha por occasião de fazer-se o mencionado Chafariz passou a denominar-se Caixa d`Água.[7]


Para Aníbal Alencastro, com a abertura da nova estrada na cidade, através das ruas da Caridade e Coronel Peixoto, é:


(…) desmantelado o sistema do aqueduto, mas mesmo assim, a população menos favorecida do bairro Mundéu continuou a buscar água na fonte do Maranhão, cujo ‘Vertedouro’ continuou situado atrás da Santa Casa de Misericórdia. Fato que aconteceu até 1950. [8]


No chafariz do Mundéu animais também se serviam de água, em meio ao movimento de diversificadas pessoas que lá iam colher água:


(…) ali no Chafariz do Mundéu também se reuniam os escravos e a plebe de Cuiabá, sobraçando latas; negros zucas com potes de barro debaixo dos braços e rodilhas na cabeça, aparando ditérios e chufas dos comparsas, o líquido com que abasteciam as vivendas dos senhores. Ali se viam negras descalças, de saias vistosas, com trepa-moleques de chita colorida na cabeça, curibocas com gaforinas de meses, molecotes seminus e sujos, com vasilhames, agitando, cantarolando, quando não jogando “cirquinho” na área lateral, dando ao local uma nota colorida, característica de cidade colonial. (…) algazarrante confusão de risos, algaravia e vaias, e não rara pontilhada de lutas, em que lapeana entrava em ação, tingindo de sangue o cenário bizarro.


Chafarizes que, como equipamentos urbanos decisivos, expressavam também complexidades da sociedade escravista:


O chafariz, ao tornar a água produto de consumo coletivo sui generis e serviço urbano básico, ao exigir o encontro de classes, cria um lugar especial de construção da identidade, denunciado pelas disputas de preferência. Desconhecia-se o expediente da fila que iguala as diferenças, vivia-se o momento de transição entre o ‘tratamento desigual dos desiguais’ para o ‘tratamento igual dos desiguais (SOUZA, 1993, p. 154).


Os chafarizes sempre foram motivos de prazer e de lazer das famílias cuiabanas:

(…) todas as noites a família se reunia na casa-mãe do Mundéu, na Praça Dom José, emoldurada pelo Chafariz (…) pequeno minadouro no quarteirão da misericórdia. (…) brincávamos na prainha, no chafariz. (…) e ali no Mundéu a gente ia pegar melão de são caetano. Pegávamos alguns lambaris, às vezes alguns cascudos. (…) um dia eu estava na porta da Justiça Federal, onde era a casa da minha avó e vi uma chuva de peixe, que não sei como foi cair ali no Mundéu (…) [9].


[1] APMT. Código de Postura. Lata 1762 a 1888, Cuiabá.


[2] BARRETO, Neila Maria Souza. Água: gota da vida – abastecimento e uso no espaço urbano de Cuiabá (1790-1886). Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, 2005. Cuiabá, 25 de julho de 2005.


[3] – APMT. Relatório de Presidente da Província, Francisco José Cardoso Júnior, 1872; mss., Livro 06, fólios 10-11. Era a Cacimba do Soldado, depois Praça Santa Rita, fronteando chácara da família de Alexandre Ferreira Mendes; hoje Praça Rachid Jaudy.


[4] – APMT. Livro de Registro de Despachos da Presidência da Província (1861-1864), despacho n. º 84, 24-01-1863, fólio 114v, mss.


[5] Maranhão, era o nome de um baiano que por muito tempo, ali cultivava o terreno e abastecia de verdura à população cuiabana.


[6] MENDONÇA, Rubens de. Ruas de Cuiabá, Editora Cinco de Março, 1969, Goiânia-GO, p.80.

[7] APMT. Relatório da câmara municipal, Cuiabá, 1872, p.44.


[8] – Professor, geógrafo, cartógrafo, escritor, em Cuiabá, abril, 2005.


[9] COSTA E SILVA, Paulo. Philippeanas – A Produção Intelectual de Luis Philippe Pereira Leite, Cuiabá, Buriti, 1999.


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