BRASIL – FRANÇA: Uma integração entre membros de Institutos Históricos

PRIMEIRA PARTE

Vista do centro histórico de Laussonne. Como Cuiabá, Laussonne tem um córrego cortando o centro da cidade.

Observações iniciais: 1 - João Pedro Gardés abrasileirou o seu nome e na maioria das vezes assina com o acento agudo no “e”: Gardés. Mas seu nome original era com o acento grave - Jean-Pierre Gardès. Nos textos em que o protagonista desta peça literária for citado e estiver relacionado à França, o tratarei por Jean-Pierre Gardès, ou Jean-Pierre. Quando os textos forem relativos ao Brasil, o tratarei por João Pedro Gardés, João Pedro, Pedro Gardés ou Gardés. 2 – O texto como um todo será dividido em três partes.

No ano de 2012, quando assumi uma cadeira no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso - IHGMT, escolhi como patrono o meu bisavô João Pedro Gardés, que foi um dos fundadores do referido Instituto em 1919. Em discurso de posse, me propus buscar mais informações sobre a vida desse carismático professor. Recentemente, viajei à cidade natal de Jean-Pierre Gardès, o seu nome original. Laussonne, o berço da família Gardès, está localizada nas montanhas centrais francesas.


Na França, na “Commune de Laussonne”, hospedei-me na casa da prima francesa, Annie, também escritora e presidente do instituto histórico local. Uma integração familiar e de institutos históricos havia se formado naquele encontro Cuiabá-Laussonne. Ou seja, Brasil-França, se considerarmos que representamos nossas cidades e países, informalmente.


Robert Louis Stevenson, famoso escritor escocês que trilhou por essas montanhas e escreveu sobre elas, denominou os seus habitantes de “highlands”, comparando-os aos habitantes das “terras altas” escocesas. O referido escritor fez referências ao então Jean-Pierre Gardès em seu livro de 1878, transformando-o em uma “lenda anônima”. Stevenson não cita claramente o nome do lausonense que partiu em 1870 para a América do Sul. Foram das pesquisas de Annie, aliadas às minhas, que chegamos ao nome de João Pedro Gardés. Essa e outras lendas que ele gerou serão contadas em meu próximo livro sobre a sua vida, a ser lançado em 2013, em Cuiabá.

Arredores de Laussonne. Este autor, ladeado por Jacky, de calça preta, e Pierre, o Prefeito. Marcelle Gardès e Annie, de blusa laranja.

SEGUNDA PARTE -

Tomei conhecimento de que Jean-Pierre Gardès era o primogênito de uma família de 18 filhos, o que é uma das novidades para os seus descendentes do Brasil. Buscamos muitas informações documentais sobre João Pedro e refizemos os seus passos.


Primeiro, fomos à fazenda Feypot, a 2 km de Laussonne, onde ele nasceu em 1844; depois, fomos ao pequeno Seminário onde estudou a partir dos 12 anos e recebeu o primeiro diploma de Bacharel. Conhecemos o Grande Seminário em Le Puy, capital do Haute Loire, localizado a 18 km de Laussonne, onde Jean-Pierre também estudou.


Partimos para Grenoble, nos Alpes franceses, para conhecermos a famosa universidade em que ele se tornou bacharel pela segunda vez. Segundo Annie, o título que ele recebeu equivale ao de “Doutorado”, por ser expedido por uma universidade daquela época. A formação que João Pedro obteve na França, seja nos Seminários ou na Universidade de Grenoble, lhe capacitou a trabalhar com um leque de possibilidades.

Alex e Dirce sobre a histórica ponte do riacho Laussonne Alex e Annie. Acima Igreja de S. Michel em Leuy

Família Gardés - Em pé da esquerda para direita: Saturnino Nicola Maiolino; Pedro Maiolino com sua filha Uster no colo; Ademar Gardès; Claudio Florêncio Gardès; Jefferson Craveiro de Sá, Odilon Gardès; João Craveiro de Sá. Sentados, da esquerda para a direita: Veleda Gardès com seu filho Ibsen; Anna Tereza Gardès; João Pedro Gardès com Duílio no colo, Maria Conceição Gardès, Luísa Rosa Gardès. Pela idade das crianças, essa foto data de 1913. João Pedro Gardès havia enviuvado em 1912 e assim permaneceu até o fim da sua vida. OBS. Saturnino Nicola Maiolino e Pedro Maiolino são irmãos e italianos, que casaram com duas irmãs e filhas de João Pedro Gardés, Veleda e Anna Tereza respectivamente. Portanto, todos os Maiolinos cuiabanos são também Gardés. Por aproximação, o venerando professor Gardés nesta foto está com 67 anos de idade. Meus avós são Saturnino Nicola Maiolino e Veleda Gardés.

João Pedro Gardés foi um “francês das terras altas” que imigrou para a América do Sul. Chegou primeiro em Buenos Aires, em 1870, depois em Cuiabá, em 1871. Aqui, na “cidade verde”, fez a sua história. Sempre humilde, teve seu primeiro trabalho como “chacareiro”.


Mas logo descobriram suas múltiplas habilidades e o contrataram como farmacêutico. Nos intervalos de seu trabalho na farmácia e à noite lecionava a particulares. Ele foi nomeado Lente da Cadeira de Geografia e História do Curso Noturno, até assumir uma cadeira efetiva de professor de Francês no recém-criado “Lyceu Cuyabano”. Portanto, foi um dos primeiros mestres desse Lyceu. Mais tarde, ascenderia ao cargo de Diretor.

Além do Português, que aprendeu rapidamente, falava o Inglês, o Grego, o Latim, o Espanhol e o dialeto Patuá, da sua terra natal. Mais tarde daria aula no Liceu Salesiano e no Arsenal de Guerra. Era atuante e formador de opinião. Optou pela “terra brasilis” e pelo solo cuiabano se naturalizando brasileiro em 1874. Casou-se com a cuiabana Anna Edwirges de Moraes Carvalho e formou uma família com 10 rebentos. Candidatou-se a Deputado Estadual pelo partido Republicano e foi eleito Deputado Constituinte em 1891. Colaborou com a primeira Carta Magna Republicana do Estado de Mato Grosso.


Foto e acervo das famílias Gardés e Maiolino


TERCEIRA PARTE

São por amplos conhecimentos obtidos nas escolas francesas, que João Pedro Gardès, de formação em Letras, atuou como farmacêutico, manipulando medicamentos; como engenheiro agrimensor, medindo terras; como arquiteto, planejando e construindo suas próprias casas. Foi também um empreendedor montando uma pequena fábrica de tijolos e atuou intensamente como professor de diversas matérias, como o Inglês, Francês, Latim, Grego, História, Geografia, Geometria, Matemática e Ciências Naturais.


Foi designado para construir e organizar a Escola de Aprendizes Artífices de Mato Grosso, tornando-se o primeiro Diretor (1909 a 1914). Assumiu o cargo de Diretor do Departamento de Terras; de Engenheiro Municipal; de Diretor da Instrução Pública. Foi eleito Presidente da Sociedade de Estudos Científicos. Dirigiu a Sociedade Mato-grossense de Agricultura.


Doou um terreno na Rua Barão de Melgaço para o Estado construir uma escola destinada aos filhos dos trabalhadores do Campo D’Ourique. Portanto, uma escola gratuita. João Pedro, também se preocupava com a evolução da cultura brasileira no aspecto literário. Contribuiu financeiramente para que um importante livro de João Severiano da Fonseca pudesse ser publicado: “Viagem ao redor do Brasil”.

Constituintes de 1891- em pé, da esquerda para a direita: Luís da Costa Ribeiro, João de Morais e Mattos, Major Juvenílio Barbosa, Francisco Gonzaga Cícero de Sá, Joaquim Caraciolo Peixoto de Azevedo, Salomão Alves Ribeiro, Pedro Celestino Corrêa da Costa, Antônio Alves Ribeiro, Antônio da Silva Albuquerque, João Pedro Gardés, Flávio Crescêncio de Mattos. Sentados, da esquerda para a direita: José da Silva Rondon, Ten. Cel. João Maciel da Costa, Manoel José Murtinho, José Magno da Silva Pereira, Gen. João Nepomuceno Medeiros Mallet – Governador do Estado, José Maria Metelo – Presidente da Assembleia Legislativa, Cel. Generoso Paes Leme de Souza Ponce, Manoel Escolástico Virgílio, Gen. João S. Cerqueira Daltro, João Batista de Oliveira Sobrinho, Delfino Augusto de Figueiredo, João Maria de Souza.

A aptidão daquelas instituições de ensino francesas, por onde João Pedro Gardés passou, era a de fornecer a seus alunos, conhecimentos nas mais variadas áreas. Pedro Gardés, como às vezes assinava, aprendeu, além de idiomas, outras ciências. O seu nome consta como um dos melhores alunos por onde passou. Há citações de prêmios que ele recebeu como estudante.


José Barnabé de Mesquita e Cesário Prado, seus alunos e depois confrades no Instituo Histórico e Geográfico de Mato Grosso, veneravam o “velho professor.” Deixaram registrados na história de Mato Grosso as suas manifestações de gratidão a esse dedicado mestre. Mesquita chamava-o de “Crônica viva”, devido a excelência de sua memória.


Em seu “Elogio Fúnebre a João Pedro Gardés”, Mesquita relata uma passagem interessante sobre o venerando professor: “... Orientou a sua vida por um ideal - a instrução. Velho, doente, alquebrado, era de vê-lo já aposentado, exercer a função gratuita de inspetor escolar da povoação do Coxipó da Ponte, rompendo a pé apoiado na tosca bengala de madeira, a distância de 6 km que separa a capital daquela povoação... Porque ele, de fato, exercia as funções que lhe cometiam”.

Existem duas citações, que se complementam e formam uma interpretação sobre João Pedro Gardés. Firmo Rodrigues em seu livro: “Figuras e Coisas de Nossa Terra” escreve: “... João Pedro Gardés que tudo lecionava...”. José de Mesquita em seu “Elogio Fúnebre a João Pedro Gardés” registra ainda: “... Gardéz será sempre o paradigma da dedicação ao ensino...”.


João Pedro era um professor múltiplo, e isso o colocava em destaque em relação aos professores especialistas. Também era um professor arquetípico e referência para todos os demais. Mesquita, Rodrigues, Cesário Prado, Alexandre Ferreira Mendes dentre outros, transformaram João Pedro Gardés num ícone da educação mato-grossense.

Cuiabá, 30/10/2012



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