Restaurador que aprendeu técnicas em revista culpa móveis planejados pelo ‘abandono’ de peças antiga



Criatividade e curiosidade: essas foram as chaves do mineiro José Marcos Paiva, hoje com 65 anos, quando começou a trabalhar com restauração de móveis em Cuiabá. Depois de se ver sem emprego, ele precisou ‘se virar’ para aprender uma nova função. Conseguiu. Hoje, após trancos e barrancos, incluindo ‘cano’ do sócio e o ‘boom’ dos móveis planejados, já soma vinte anos de experiência na área e muitas histórias para contar.


“Eu comecei vendendo salgado na Avenida Prainha”, conta o mineiro, que vive em Cuiabá há mais de vinte anos. “No shopping de camelô, bem em frente a um ponto de ônibus. Fiquei quase um ano lá, aí quando estava melhorando, o cara [dono do imóvel] vendeu pra estacionamento”. Após o primeiro tropeço, Marcos fez uma parceria com uma loja de estofados: enquanto o dono fazia os sofás, ele restaurava os móveis. Para aprender a fazê-lo, contou com ajuda de revistas, principalmente da Revista Cláudia. Com o tempo, o autodidata começou a se aventurar na criação de novas peças e técnicas, e se uniu com um sócio para abrir o próprio espaço. “Mas como o sócio tinha o nome sujo, eu comprava tudo no meu nome. Só que me ferrei, porque ele sujou o meu nome também”. A relação trouxe ainda outros problemas, pois o sócio sumiu devendo dinheiro e serviços para muitas pessoas, o que fechou as portas para Marcos, que ficou por aqui e perdeu a confiança dos clientes. Para conseguir se reerguer, ele começou a fazer trabalhos para donos de lojas e pessoas importantes. Aos poucos, foi novamente ganhando reconhecimento, e alugou o espaço onde vive e trabalha há dezesseis anos. Desde o início, uma das principais formas de trabalho de Marcos é a venda por consignação. “A turma vai mudar de casa pra apartamento, e não leva os móveis antigos, porque fazem mais móveis planejados”, explica. “Eu restauro, vendo e tiro minha comissão, de 20%”. Grande parte dos móveis no ‘Empório das Artes’ estão à espera de um comprador para, só depois, serem restaurados. Outros, no entanto, foram encontrados na rua por Marcos ou por ‘catadores’. “A turma joga muita coisa boa fora! Agora não tanto, mas quando eu cheguei aqui, nesses bota fora você achava coisa que ficava besta! Muita coisa de prata, bandejas, várias coisas”. E nada passa despercebido pelo restaurador. Mesmo quando encontra uma janela, um pé de mesa ou um pedaço de ferro, ele guarda, afinal de contas nunca sabe quando pode precisar. Dentre os móveis mais diferentes que já encontrou, um é uma cabeceira de cama de 1901, que estava em um ‘bota fora’ em frente a uma igreja. Dentro da casa, aguardando comprador, está também um guarda-roupa de madeira maciça, todo detalhado, que a antiga dona pede R$17 mil. Marcos também tem diversos tipos de artigos de decoração, lustres, pratos, xícaras, além de discos de vinil e filmes em VHS. Nos últimos anos, no entanto, o restaurador conta que a procura vem diminuindo, muito por conta dos espaços cada vez menores, e pela ‘invasão’ dos móveis planejados. “Hoje meu serviço é muito pra condomínio e pra Chapada, porque em condomínio é casa grande, e em Chapada os móveis tem que ser de madeira maciça”, afirma. No entanto, ele garante que a qualidade dos móveis antigos é imensamente superior. “A única coisa que é melhor dos móveis planejados é que é mais fácil pra limpar, porque os móveis antigos têm muitos detalhes e junta poeira (...) [Se] você vai comprar uma cristaleira hoje, o preço é um absurdo e não vale nada. É tudo em MDF! Os antigos não! São de madeira”, finaliza. Serviço Empório das Artes Avenida São Sebastião, 2084 – Cuiabá Informações: (65) 99913-2024





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Neila Barreto

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