Na zona rural de Chapada, crianças aprendem sobre disciplina e solidariedade através da música


Pouco depois das 6 horas da manhã de uma terça-feira, um carro de professores – e, às vezes, instrumentos musicais – parte da sede do Instituto Ciranda, no bairro Boa Esperança, em Cuiabá, a tempo de tomar a balsa que atravessa duas comunidades divididas pelo alagamento da Usina de Manso, pontualmente, às 8h30. É o início de uma rotina que se repete, também, todas as quintas.


Desta vez, porém, o encontro será especial para as crianças da comunidade João Carro, zona rural de Chapada dos Guimarães, que aprendem a tocar instrumentos de sopro. A próxima aula de música seria dali há dois dias, mas, na ocasião, os jovens receberão o maestro Murilo Alves e a coordenadora da modalidade, Jéssica Gubert, para um dos últimos ensaios antes do concerto que farão em Cuiabá na próxima quarta-feira (1º), na Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL).


Do outro lado do lago, alunos de ensino fundamental e até a pequena população do distrito de Água Fria já esperam pelos professores para as aulas de violino, flauta doce e coral; eles também estão ansiosos pela apresentação na Capital. É a primeira parada do comboio de educadores e reportagem, após mais de uma hora de estrada até a cidade de Chapada e quase 30 minutos de trecho em obras para pavimentação.


No colégio de Água Fria, a Escola Estadual do Campo São José, descem os músicos e educadores Karoline Fernandes e Diego Monteiro Lopes. Murilo e Jéssica seguem acompanhados da reportagem para João Carro. O maestro relata que quando a balsa estraga, a saída é pegar um atalho de chão de 25 minutos por trás do colégio; Jéssica conta que na semana passada, os professores chegaram a atolar.


Na fila de carros para atravessar o rio, Murilo explica que o projeto iniciou, este ano, um novo ciclo. Foram dois anos sem atividades nos distritos, devido à incerteza que permeou a conjuntura política de impeachment que levou Furnas, patrocinadora do programa há mais de 10 anos, a parar com os projetos da estatal. Nas comunidades, o projeto existe desde 2012.


“Mas o Ciranda nunca parou de fato. Nesses dois anos que ficamos sem aulas regulares, a gente vinha, conversava com os alunos, fazíamos reuniões e orientávamos a cuidar dos instrumentos, que ficam com eles em casa para poderem ensaiar”, ressalta o maestro.



Aula debaixo da Mangueira


No caminho até a Escola Municipal Jacondina Bezerra, localizada no centrinho de João Carro, em frente a uma quadra de esportes, o chão é de terra e as casas separadas por cercas de arame. No colégio, em uma sala de aula com cerca de 20 alunos, o jovem Rodrigo Dal Cortivo da Silva, 18 anos, é um dos primeiros a receber o “mestre” Murilo Alves com um abraço caloroso.


Identificado pela turma como o “líder” e aluno mais dedicado, o jovem estuda durante a tarde e, às quintas-feiras, madruga para tomar o ônibus escolar, às 5 horas, em uma comunidade vizinha (12 km de João Carro) para as aulas de música do Instituto Ciranda. Desde os 13 anos ele participa do projeto tocando flauta transversal, instrumento que talvez não chegasse a conhecer sem o contato com o projeto.


“Quando os instrumentos de sopro foram apresentados aos alunos, eu tinha pego o trompete, mas não tive aquele impacto, aquela ligação… Achei a flauta transversal diferente, nunca tinha visto, só depois do projeto fui conhecer e pesquisar mais”, lembra Rodrigo.


Hoje o jovem já tem seu próprio instrumento e uma rotina de ensaios em casa. “Chego da escola e já é quase 6 horas da tarde. Tomo um banho e, quando a janta não está pronta, já pego o instrumento para ensaiar. Quando eu comecei, ia até a meia noite, 1 hora da manhã tocando. Na escola, quando eu tenho uma ou outra aula vaga, eu também sempre toco”, conta.


Rodrigo é o irmão mais velho de dois garotos, um de 15 e outro de dois anos. “O pequenininho até dorme quando eu toco e o outro também está estudando comigo, a gente toca bastante junto”, conta. Com o apoio da família, viver da música virou um sonho, sobre o qual, no entanto, ele fala com cautela: “No momento, se eu tiver chance na música eu vou seguir. Está nos planos de Deus, né? Espero a vontade Dele. Vou fazer o Enem esse ano e não sei se agora eu consigo fazer música, mas vou tentar”, explica.


Jovem de fé, encara a música como um prática prazerosa e nela vê uma ferramenta de transformação da vida e do pensamento das pessoas. “Você começa a ter mais consciência e só atrai alegria no coração. Acho que todo mundo que toca algum instrumento tem uma felicidade maior”, ressalta.


Junto aos colegas, ele logo se ajeitou em seu lugar nas cadeiras dispostas em meia lua, no quintal da escola, após o anúncio de Murilo de que a aula seria debaixo da Mangueira. Concentrado, ouviu o maestro a todo tempo com atenção; um pouco diferente do amigo Davi, que já abordou Murilo antes mesmo da aula, pedindo para aprender “Stand By Me” no saxofone.


Entusiasmado, o garoto logo pegou os acordes do clássico e se espantou com a velocidade do ritmo: “Rapaz!”, exclamava. Durante a aula, também foi motivo de diversão dos colegas quando o professor contou que ele seria capa de filme. Um documentário sobre o Instituto Ciranda, cujo enredo começa e termina em João Carro, também estreia na ocasião do concerto, na quarta-feira (1º).


Enquanto o ensaio rolava, uma criança bem mais nova observava tudo do escorregador e interagia trocando mangas com a reportagem. Descobrimos que o pequeno, encantado, é aluno da professora Luana Bezerra da Silva, de 22 anos. Ex-aluna e monitora do Ciranda, a jovem também recebeu Murilo com entusiasmo logo na chegada. Em entrevista, ela contou que toca flauta para seus aluninhos em sala de aula, revelando sua experiência com o projeto: “o Ciranda foi a melhor fase da minha vida”.

Ciclo de união

“Acho que se não fosse o Ciranda, talvez eu não tivesse feito faculdade, não teria meu emprego de professora e estaria dedicada somente a um casamento e vários filhos. A minha prima, que também participou, está estudando Fisioterapia, e antes ela não queria nada com a vida [risos]. Só saiu do projeto porque foi para Cuiabá”, conta Luana, em meio a desenhos, cadernos e gritos de “tia”.

Luana começou no Ciranda através da flauta doce, mas soube desde o início que queria tocar clarinete – foi umas das alunas mais destacadas no instrumento. Em casa, ela ensaiava até mais tarde: “minha avó chegava a ficar até brava, porque eu não deixava ela dormir”, brinca. Atualmente, a jovem conclui o curso de Pedagogia, quer se graduar em Música e voltar ao projeto do qual se afastou devido aos afazeres e à distância da comunidade onde mora.

À experiência como aluna e monitora do Ciranda, ela atribui a escolha pela a profissão de professora. “Eu estava só na faculdade e, no período da manhã, vinha ajudar as crianças da flauta doce. Era uma ajuda e tanto para eles, pois como os professores só vêm uma vez por semana, chegavam aqui as crianças já estavam ensaiadas. Foi quando me apaixonei por ensinar”, relata.


Mas Luana também contou sobre as várias dificuldades enfrentadas pelos alunos – a maioria de comunidades próximas a João Carro – como vivenciou com os amigos de sua época.

“Para mim foi mais fácil porque eu morava aqui próximo e já trabalhava na escola. O Ciranda viu responsabilidade e confiaram em mim, me dando a primeira sala de aula. Recebia 400 reais, o que já era uma ajuda e tanto, mas eu tinha colegas que trabalhavam em plantações de mandioca, desde às 5 horas na lida, e chegavam muito cansados. O ônibus lá em casa, por exemplo, passa uma vez e na próxima não dá mais tempo, às vezes quebra e foi só já terminando que consegui comprar uma moto”, lembra.

Além de se empoderar, com as aulas de música Luana aprendeu sobre disciplina e solidariedade. “Eu não sabia o que era ter responsabilidade e ali você tinha que cuidar do seu próprio equipamento. Aprendi a compartilhar e a respeitar a vez do próximo. Eu era muito tímida também, mas como tinha facilidade de aprender, passei a ensinar. Era um ajudando ou outro, mas a gente não percebia isso, fomos aprendendo que Ciranda é união. Quando tínhamos apresentação, combinávamos de ensaiar lá em casa e tirávamos foto para mostrar para a Jéssica e o Murilo [risos]”, complementa, divertida.

Desafios e possibilidades

Cruzamos o lago de volta a Água Fria e encontramos os professores Karoline e Diego no descanso do almoço. Os educadores contaram que estão há oito anos somando ao Ciranda pelo prazer de lecionar música, além das inúmeras possibilidades que a coletividade do projeto proporciona.

“Tem uma flexibilidade legal de horários e geralmente já estamos inseridos no projeto; ser professor foi mais uma atividade gratificante. Sem contar o prazer de ver seus alunos, jovens que nunca tiveram contato com música, virarem monitores e professores”, explica Diego, que começou como aluno, em 2010.


Sobre as diferenças da dinâmica de aprendizado entre as comunidades e os polos maiores, os professores destacam inúmeros desafios, como o processo de evasão. “A gente percebe que nas comunidades rurais uma dificuldade maior com a disciplina de estudo e frequência nas aulas. Além de ensinar música, a gente precisa criar artifícios para ensinar respeito, trabalho em conjunto, e ter estratégias para fazer com que eles frequentem as aulas e também estudem em casa”, explica.


Karoline conta que a estrutura da escola é outro desafio. Em Água Fria, eles improvisam a sala de aula em um anexo do colégio, tomado por desenhos e notas musicais na parede e com uma barreira para luz feita de palhetes. “As escolas fornecem o espaço, mas não tem uma sala própria e os professores tem que se adaptar à realidade de cada colégio”, conta a professora.


Mas todo o trabalho, que vai além das aulas de música, não desanima em nada o trabalho dos professores. “Você acorda três horas antes do horário para poder estar aqui, a estrada agora está muito boa. Tem uns dias que o físico cansa, você não quer levantar, mas acho que tudo se completa com o resultado final. Para as crianças também, elas acordam cedo ou precisam correr para voltar do almoço a tempo de ter aula de música”.


Música que pode servir para diferentes aspectos na vida das crianças para além da intenção profissional, como é para a aluna de flauta Aline Fernanda, de 13 anos. “E mais uma diversão, tenho outros planos…. Quero ser médica”, conta. Apesar de não pensar em seguir na música como profissão, a jovem reconhece que a prática tem uma importância especial em outros aspectos: “Me ajuda ater mais atenção, concentração e disciplina. A música ajuda muito em várias outras coisas na vida da gente”.


Aline é uma das alunas que irá se apresentará em Cuiabá. Para ela, se apresentar e assistir os instrumentos que aprende alimenta ainda seu interesse pela prática. Ela assistiu concertos na capital e em Chapada e conta ter se encantado com a grandeza: “Foi interessante ver outros instrumentos, é legal ver como aquilo existe, o tamanho e o som dos instrumentos tocados por um profissional”.


Escolhida pelo professor para representar a turma em entrevista à reportagem, sua dedicação é visível ao ajudar os professores a montar a sala e mobilizar os colegas para o início da aula. Ela reconhece: “Ah, sim… Até porque, tem gente que é uma dedicação que até me inspira!”, brinca, com ironia, se retirando da sala, com a firmeza de quem cumpre suas responsabilidades, para ir ao encontro dos colegas no intervalo.


















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