Grupo Tibanaré resiste e promove o teatro independente no Brasil já há 12 anos



Com roupas coloridas e acessórios chamativos, o maior atrativo dentre todas as coisas é o sorriso de quem está prestes a encenar mais um espetáculo. Atores apaixonados pela arte, que adaptam seus passos e ilimitam os corpos em constantes ocupações de novos espaços. Destinos urbanos ou em meio à natureza, cidades grandes ou pequenas e apreciadores de mamando a caducando.


Prestes a marcar para sempre a memória de um dos idealizadores do grupo Tibanaré, uma das performances que mais marcaram a trajetória desses andarilhos, aconteceu na zona rural de Barão de Melgaço. Sem luz elétrica, cortinas vermelhas ou os tablados lustrados dos palcos, as perspectivas para a apresentação se transformam a cada experiência.


Os lenços e tintas se rebuscaram na estrada e, ao invés de jatos brancos de fumaça, a poeira marrom foi levantada nos ares. Os moradores, naquela data, se queixavam da insegurança que existia na comunidade pela falta da iluminação pública e recomendaram aos artistas que se apresentassem no período da tarde. “Tínhamos uma programação intensa com intercâmbio, capacitação e apresentação, não dava para mudar o horário daquela apresentação e de outras que estavam marcadas em outros lugarejos”, descreve Jefferson Jarcem.


Apenas nove moradores acompanharam a encenação, raros eram os postes de luz ligados. “Os outros não viam condições de apresentação naquela situação. Não era uma apresentação num ponto fixo ou em um local iluminado, e sim um cortejo que caminharia nas ruas escuras”, lembra.


Jefferson, que é um dos fundadores do grupo Tibanaré, diz que naquele tempo os atores já tinham calos nos pés e os receios das diferenças sempre saiam dos corpos quando se iniciava cada apresentação.


“As tímidas pessoas olhavam com curiosidade e sorriso tímido. O cortejo saiu do território iluminado e entrou no breu daquelas pequenas ruas. Elas continuavam acompanhando e, aos poucos, as janelas iam se abrindo. Fomos ganhando brechas de luz que nos ajudavam a desviar das poças de lamaçal”, conta.


Apesar das inseguranças, o grupo persistiu na intervenção. A cada rua, segundo Jefferson, trocavam olhares de tristeza por não encontrar uma forma de relação. De modo repentino, apareceram várias crianças quem para elem foram como vaga-lumes, rindo e gritando para esperar. “Cada uma trazia na mão sua lanterna e dizia que queria ajudar a iluminar o trajeto do cortejo.


A distância que sentíamos era apenas a mente mentindo com a gente. As pessoas estavam emocionadas na janela e, a maioria dos adultos corria para achar uma lanterna, pedindo aos filhos para acompanhar aquele encontro”, recorda.


Não existem registros fotográficos da noite escura tão emocionante para cada membro do Tibanaré. Só a mente exibe como um filme um dos trajetos mais emocionantes que percorreram, pela simplicidade, amor a arte, pela insistência em proporcionar teatro para pessoas que, talvez, nunca tenham ido a um grande espetáculo. Foi como uma alusão ao breu da valorização da cultura, ainda assim, com suspiros e janelas que se abrem pouco a pouco. Com crianças que, aos berros, socorrem com lanternas um caminho que leva mais do que os instintos dos passos, mas a fé de que vale a pena continuar.


12 anos de trajetória


Ao longo da trajetória, o coletivo se desenhou com treinamentos diários, aprimorando as potencialidades e o estudo pessoal de cada ator e atriz. Funciona como uma escola e se concretiza como um grupo focado na investigação cênica da palhaçaria, de ações físicas e da cultura popular para criar espetáculos para espaços convencionais e alternativos como às peças de rua, praças, presídios, zonas rurais e ribeirinhas, feiras livres, ônibus coletivo.


“Isso possibilita uma pesquisa que se transforme em cada espaço de experimentação e atinja uma diversidade de públicos de forma significativa. É estranho o que vou dizer mas, analisando a realidade que vivemos em Mato Grosso ou até no Brasil, nosso primeiro diferencial é viver da nossa própria arte”, explica.

A produção pensa não só na difusão das obras artísticas, mas em um planejamento de médio e longo prazo, com ações disparadas através dos anseios do coletivo. Para o futuro, o grupo deseja ter um núcleo continuado de formação em teatro e produção cultural.


Para Jefferson, que também é diretor dos espetáculos, o grupo consegue dialogar com todas as classes sociais. “Já nos apresentamos em teatros bem estruturados, como também no corredor de um presídio e até mesmo na varanda de um boteco e conseguimos sempre nos conectar com as pessoas de forma verdadeira e intimista”, salienta.


Por ser independente, o grupo vive através das obras e capacitação. Além disso, soma o Núcleo de Teatro Tibanaré, um espaço de formação direcionado nas metodologias do grupo que foi criado pela necessidade de ter atores já alinhados com as práticas. Por isso, se divide entre a parte de criação artística e produção.


Em 2018, o grupo foi contemplado para a circulação Petrobras 2018/2019 no projeto Teatro em Movimento e, neste mesmo ano, também com duas circulações em pré-produção, estas incentivadas pelo Governo de Mato Grosso. Em 2016, outro importante prêmio foi o Brasil Criativo na Categoria Teatro. Antes disso, mais especificamente em 2012, 2013 e 2015 foi também agraciado com patrocínio direto do Banco da Amazônia com o intuito de possibilitar circulações no interior de Mato Grosso e de mais 11 Estados brasileiros.


Teatro em todos os lugares


Jefferson acredita que a transformação social por meio da cultura não acontece por causa de um grupo e, sim, pelas diferenças e identidade de cada coletivo. Para ele, a pluralidade move para as mudanças e impactos nas artes cênicas locais. “Mato Grosso tem artistas incríveis que influenciam de alguma forma outros artistas. Historicamente, o grupo Tibanaré é de artistas resistentes. Quando acham que vamos desabar, mais fortalecidos voltamos, pois foram caminhos difíceis para alcançar e a cada momento que amadurecemos, mais difíceis ficam os caminhos, já que os sonhos se ampliam”, defende.


No aspecto social, Cuiabá está presente nas obras, às vezes através da musicalidade, da trilha sonora, figurino, humor ou até mesmo na poesia física do ator. “Além dos espetáculos, em que sempre tentamos descentralizar para comunidades rurais, movimentos sociais e chegar a lugares em que há poucas opções culturais, tanto de obras artísticas como de equipamentos culturais”, salienta.


O Tibanaré também trabalha projetos que contribuem para o acesso às obras literárias, para a democratização da cultura e para o fortalecimento do teatro de rua no Estado. “Isso dialoga com os artistas locais e com a população, como no Festival Zé Bolo Flô de Teatro de Rua, que propõe a ressignificação dos espaços urbanos da cidade de Cuiabá e a vivência de um território híbrido de produções de teatro que dialoguem com a cidade e seus viventes enquanto espaço cênico”, finaliza.

Hoje, as práticas estão voltadas para o teatro itinerante de rua e o realismo fantástico através do teatro-palhacaria-dança.




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