Eduardo Mahon conversa com Lorenzo Falcão


O entrevistado da vez é o escritor, jornalista, dramaturgo e produtor cultural Lorenzo Falcão, recém-empossado na Cadeira 12 da Academia Mato-grossense de Letras. Lorenzo escreve poesia, crônicas e contos, é sócio-proprietário do mais tradicional site literário de Mato Grosso, o Tyrannus Melancholicus. Mahon: Você foi eleito para a Academia Mato-grossense de Letras. Hoje, dia 21, é a sua posse. Você que já macaco velho na literatura e sabe das mumunhas da coisa toda, por que quis entrar justamente agora? Lorenzo: Por causa das mudanças na Academia e em mim. Quando me dei conta, estavam na Academia vários escritores que sempre foram meus parceiros, aquele bando de caititus intelectuais, como por exemplo, Ivens Scaff, Lucinda Persona, Luciene Carvalho, Marta Cocco, Cristina Campos, Aclyse de Matos. Acho que a Lucinda a melhor poeta de Mato Grosso, mas independentemente disso, crescemos todos juntos num convívio muito divertido. Mahon: E a satisfação inerente do reconhecimento? Lorenzo: Nós atravessamos um período de crise em geral, nas instituições. Quando a Academia insere em seu contexto esses escritores que são os mais ativos e reconhecidos, a instituição ganha em credibilidade. É claro que penso em entrar numa casa quase centenária, que abrigou uma infinidade de ótimos nomes durante quase 100 anos. O próprio Barão de Melgaço era uma figura emblemática, estimulava a cultura e bibliotecas. Embora eu tenha um estilo porra-louca, sou um cara metódico, sou meio careta também. As nossas vidas são feitas de concessões. Não vou morrer dando murro em ponta de faca, mas vou morrer sonhador. Então, numa instituição como a Academia de Letras, ganho mais possibilidades de sonhar e de mudar o que vejo. Mahon: A instituição institucionaliza? Lorenzo: Qualquer instituição precisa abrir suas portas e desprezar a elitização. Mahon: Acho que tem muita confusão entre os dois conceitos e você felizmente tocou num ótimo ponto. Uma coisa é a instituição e outra a elitização. Porque acho difícil “desinstitucionalizar” uma instituição centenária, mas é certamente possível “deselitizar”. Lorenzo: Essa é a minha questão, a abertura. É possível mudar internamente para permitir um maior diálogo com o povo, abrindo, ou melhor, escancarando as portas. Por exemplo, deselitizando a arte em geral. Sempre pensei assim. Mahon: Não discordo de você, mas acho gozado falarmos em instituição e elitismo. Parece que há um nariz torcido da crítica (e até mesmo do meio artístico “cult”) para tudo o que faz sucesso, uma certa mágoa. O lance do culturete é fazer com que um grupo seletíssimo de pessoas vejam um filme, leia um livro, escute uma música. Parece que há um nojo de público grande, um combate velado ao consumo. São um tanto esquizofrênicos esses artistas gourmet – quero ser reconhecido, mas não quero fazer tanto sucesso. É uma impressão minha ou é também a sua opinião? Lorenzo: Depende muito. A arte contemporânea não é feita apenas para poucos. Quando vejo o Babu fazendo grafite no meio da rua, vejo a arte num sentido coletivo. Eu particularmente não vejo graça de sair de casa para ver um filme comercial. Não me acrescenta em nada. Até porque nasci em berço de ouro, com vasta biblioteca, acesso à música erudita etc. É importante que a população tenha acesso ao produto mais sofisticado. Mahon: Não é o culturete o primeiro a torcer o nariz para o grande público? Lorenzo: Culturete, pra mim, é coisa de colunista social! (risos) Acho isso meio depreciativo. O artista precisa entender que sua produção precisa ser popularizada, muito embora haja a imprevisibilidade da arte. Agora o best-seller não me agrada. Prefiro buscar o desconforto da literatura de qualidade. Reconheço que há um quê interessante em chegar às massas e estabelecer comunicação com milhões de pessoas, mas não é pro meu bico. Há vários vetores que fazem um livro estourar. Mas um James Joyce é bem diferente. Me agrada bem mais o escritor que escreve para escritor. Quem vive cultura vai entender muito melhor a diversidade. Mahon: Não vejo nada demais ver um filme comercial americano e ver, depois, um filme noir, um drama iraniano ou um suspense espanhol. Lorenzo: Também não, mas prefiro ver o comercial em casa e aproveitar o cine arte para ver num telão. Mahon: Acho interessante como se comporta a crítica, volto a dizer. É um nível de expectativa e exigência completamente fora da realidade. Pode apostar: se muitos críticos gostam de um filme, ele será um fracasso. Quem teve essa sacada foi Machado de Assis e, antes dele, José de Alencar. Digo o mesmo quanto ao livro, à dança, ao teatro. Isso é um saco: ver um fato cultural relevante para poucos. Lorenzo: De repente é um pouco preconceito meu, mas não consigo escutar sertanejo e nem uma Anita, por exemplo. Eu cresci escutando música clássica e ópera. Não consigo me adaptar. Mahon: Acho preconceito mesmo, você vai me desculpar. Há coisas maravilhosas e muito engraçadas. Não se engane – o brega de hoje será o cult de amanhã! (risos) O clipe da Anita fez sucesso por mostrar a realidade da laje carioca, onde as mulheres tomam sol com tiras de esparadrapo. Joãozinho Trinta dizia – quem gosta de pobreza é intelectual. Pobre gosta mesmo é de luxo. O povo, caro Lorenzo, precisa comer desse biscoito fino sem constrangimentos. Ouço funks que são de altíssima qualidade. Morro de rir ouvindo sertanejo. Não curto somente clássica ou ópera. Ouvir isso o dia inteiro deve ser um porre. Lorenzo: Pois é, eu não vejo valor nisso de funk etc. Se estou num local e ouço esse tipo de música, levando e vou embora. Não fico mesmo. Mahon: E então, como fica você no meio do glamour acadêmico? Lorenzo: Bem, estou esperando a minha posse! (risos) Eu gosto muito de brincadeira, levo tudo na esportiva. Acho que vou de terno e gravata nessa posse. Eu me rendo! Depois é que vou experimentar esse tal glamour pra ver se ele existe mesmo. Agora, o que estou sentindo mesmo é emoção. Talvez a eleição tenha sido a maior emoção que tive nos últimos anos. Recebi a notícia com muita empolgação. Fiquei realmente feliz, realizado. Torço que haja alguns embates ali dentro, espero que de forma civilizada. (risos) Mahon: Como é que você imagina ser o chá da Academia? Lorenzo: Não sei se é chá com torrada ou chá com porrada. (risos). Estou louco pra ver isso. Tem muita gente que diz que sou muito ligado à juventude. Mas, no fundo, tenho um carinho especial com o Dicke. Ele era moderno, mas bem fechado dentro dele mesmo. Não acho a literatura dele tão hermética como dizem. Tenho uma ligação forte com os artistas mais velhos também. Acho o Tertuliano Amarilha fantástico. Já tive papos com o Jucá em que fiquei super bem impressionado com o conhecimento dele. A Academia precisa ser mais representativa no quesito literatura. Quem escreve precisa de clarividência de raciocínio e um domínio da língua acima da média. Enquanto a nossa política está abaixo de cu de cachorro, quem salva a pátria são os artistas. São eles que aparecem falando bem do país, do Estado, da cidade. Temos a pior memória dos políticos, mas lembramos ternamente do mural do Babu. Por isso que precisamos tomar de assalto a Academia para fazer dali um local de resistência literária. Cerrar fileiras e mostrar a quem viemos. Espero não esmorecer quando entrar. Mahon: Eu mesmo mudei muito. Entrei tarifado como jurista e hoje tenho uma leitura muito semelhante à sua quanto a função da Casa. Felizmente, no meu discurso de posse, há mais de 10 anos, disse que há dois tipos de pessoas que entram para uma Academia: a primeira, vem como consagração, enquanto a segunda, como promessa. Eu sabia que estava entrando ali como uma aposta dos mais antigos. Disse isso sem saber exatamente o que estava falando naquele momento. Mas hoje tenho a noção da importância da literatura para Mato Grosso. Lorenzo: Você é influenciado pelos duendes, como diz a Marília. (risos) Todos os segmentos precisam entender isso. Precisamos muito de mais de literatura do que de formalidades. Acho algumas coisas muito caretas. Certa vez, escutei “ínclito” numa resenha. Só fui entender depois a razão pela qual o sujeito usou essa palavra. Coisa das mais estranhas. Mahon: Quando você começou a produzir? Lorenzo: Comecei publicando em jornais de Cuiabá nos anos 80, embora tenha começado a escrever desde a adolescência. Parti para publicar minhas coisas no Jornal do Dia e no Diário. Sempre tive essa simpatia pela literatura. Era assustador pra mim saber que um autor poderia escrever tanto quanto um clássico. Cresci assim, problemático e inquieto para o resto da vida. Por isso que adoro estar na Academia. Mahon: Qual o poder que tem o intelectual brasileiro? Lorenzo: Depende muito da articulação desse intelectual. De repente, o sujeito é muito inteligente, até mesmo visionário, fala bem e tal, mas não tem conexões suficientes para influir em nada. Muitos intelectuais não têm estratégia. Normalmente, são explosivos e desorganizados, o que faz perder a contribuição que poderiam dar. Pode acontecer que alguém super preparado chegue ao poder. Aí será fantástico. Coisa triste é ver um intelectual se corromper. Mahon: Você percebeu que não há político profissional na Academia? Há muitos anos, houve intelectuais que, somente eventualmente, foram políticos... Lorenzo: O próprio Governador Pedro Taques foi à Academia e fez uma série de promessas que não se concretizaram. Para mim, político não faz a menor falta numa Academia de Letras. Mahon: Volta e meia, ressurge a questão da representatividade e o local de fala dos produtores culturais. Nós precisamos nos mobilizar para equalizar as instituições ou você acha que isso é uma bobeira contemporânea? Lorenzo: Muito teórico isso, hein? Bem, é uma discussão seríssima. A Marli Walker tem um trabalho sobre isso – o apagamento da mulher na literatura. Devemos rever as instituições e dar a mão à palmatória. Precisamos do apoio de intelectuais, da ciência, enfim. Ocorre que essas categorias estão sendo vulgarizadas pelo uso fácil e demagógico, muito embora essa temática seja super válida. É difícil emitir uma opinião definitiva sobre a questão de gênero, sexo e religião como forma de acesso às instituições. O fato é que a mulher foi relegada, uma grande injustiça com a inteligência feminina. Serão o tempo e o cânone os responsáveis pela mudança. Mahon: Sou, a princípio, a favor de quotas para igualar condição de vida. Mas sou contra quotas para avaliação de talentos. Talento não tem quota. Ocorre que o reconhecimento do talento só vai ocorrer quando todos já estiverem inseridos em suas respectivas representatividades. Mas o pressuposto é básico: oportunidades iguais. O talento genuíno sim, destaca-se de forma individual. Lorenzo: De fato, é preciso uma reversão enorme. Mahon: Você já viu o perfil do escritor brasileiro? Branco, heterossexual, classe média alta e que escreve sobre outros escritores da mesma condição! Lorenzo: No caso de Machado, procuraram “esbranquiçá-lo”. Mahon: Pois é, houve colegas da ABL que o descreveram sobre um homem de “perfil grego”! Lorenzo: Já o Lima Barreto sempre foi negro. Mahon: Negro e louco. Havia mais esse estigma no curriculum para a exclusão! E o que você pensa em fazer dentro da AML? Lorenzo: Bem, eu penso em levar projetos e atuar neles depois da minha entrada na Academia. Quero contribuir num site mais dinâmico. O acesso à produção literária que está armazenada na AML é incrível. Mahon: Como você avalia a literatura mato-grossense? Lorenzo: Vejo uma gama grande de escritores novos aparecendo. Quantos livros já foram lançados esse ano? É impressionante. Vejo qualidade nos livros de Mato Grosso. É claro que não gosto de toda a poesia, nem dos novos, nem dos velhos. Também não aprovo tudo na minha própria produção. Gosto muito do Odair de Moraes, Santiago Santos, Danilo Fochesatto e gostei muito da poesia da Divanize Carbonieri. Mahon: Divanize é um ponto fora da curva. Sofisticadíssima! Lorenzo: Fico aberto a uma diversidade muito grande. Isso é enriquecedor. Na década de 80, houve coisas legais. Nossa geração rendeu ótimos frutos. A Aline Figueiredo trouxe para a UFMT grandes artistas. De lá, iam para Nova Iorque. O Wlademir trabalhava na Universidade. O Dicke estava vivo. Enfim, uma concentração de gente boa. Gente brilhante é difícil de encontrar, não é como banana que dá em cacho! (risos) Fico chateado quando um excelente autor é esquecido ou maldito de alguma forma. Mahon: Tenho a impressão que muita gente foi esquecida. Lorenzo: É aí que cabe o trabalho da Marli Walker – recuperar escritores esquecidos, sobretudo as mulheres. O que ela está fazendo pela memória da Aldenora de Sá Porto é admirável. A Academia tem um acervo que pode ser esmiuçado. Podemos contribuir muito com essa garimpagem. Mahon: Mas vamos continuar no seu percurso... Lorenzo: Escrevi para jornal, para revista, para teatro. Adaptei O Capote e cheguei a atuar. Mahon: Como assim, O Capote de Gogol? Lorenzo: Isso. Só que o nosso “capote” era um fusca. O personagem dá queixa de furto do fusca, é preciso e morre de angina. Fiz tudo adaptado para a realidade cuiabana. Muito embora eu seja de Niterói, sou apaixonado por Cuiabá. Mahon: Há mercado para a cultura em Mato Grosso? Lorenzo: O Liu Arruda, durante dois anos, ele deitou e rolou no mercado. Junto com o Chico Amorim, escrevíamos as peças. Nós ganhávamos 10 mil por peças e o Liu, uns 50 mil. Chegamos a escrever duas peças por mês, para que você tenha uma ideia. Mahon: Falando nisso, qual a sua opinião sobre o Liu? Ele fazia uma sátira fácil e caricatural ou criou um espelho para que a sociedade cuiabana se enxergasse de frente? Lorenzo: Sobre a intenção do Liu, não sei. A certeza que tenho era o que eu conversava com o Chico. Explorávamos a ambiência da família cuiabana, fundamentalmente isso. Se o Liu queria expor, explorar ou notabilizar o jeito de ser idiossincrático cuiabano, não sei. Mas ele queria ganhar dinheiro. O fato é que ele fez com que o cuiabano passou a não ter mais vergonha do que é, de tanto que o Liu reproduziu a imagem. Quero voltar àquela pergunta: há sim um mercado. Você mesmo vende livro pra dedéu. É preciso ir ao público e fazer a própria demanda. Devemos ocupar o espaço que existe. Mahon: E o que você pensa dos espaços que não existem, ou seja, museus? Lorenzo: O que acontece aqui é um absurdo. Quando fui à Europa, vi nos museus uma enormidade de grupo de jovens. Quando vejo os museus mato-grossenses fechados por causa dessa política pública atual, me dá vontade de chorar. Conheço muita gente de fora. Me perguntam o que eu estou fazendo aqui em Cuiabá. O Dicke me dizia que ninguém é artista completo em Cuiabá. Há sinais de fumaça de que isso possa mudar. Felizmente, em Cuiabá, há uma tradição de uma literatura boa, consistente. Se o Governo mantivesse esse prêmio MT Literatura, só isso já seria importantíssimo para o segmento. Mas o Governo tira do dele da reta! Mahon: Na literatura produzida aqui, há uma recorrência excessiva de Cuiabá, uma espécie de obsessão. O que você acha? Lorenzo: Talvez seja um resquício de romantismo, quem sabe. O Ronaldo de Castro, por exemplo, fala de Cuiabá de uma forma diferente, bem mais moderna. Clamo pela novidade, mas parece que a coisa não anda pra frente. Mahon: Há mais alguém da sua patota para entrar na AML? Lorenzo: No futuro, meu voto é da Marli Walker, claro. Para falar da patota, o Luiz Renato e o Eduardo Ferreira estão muito habilitados. A Academia está num período de rejuvenescimento, muito embora a literatura seja uma arte que demande tempo para decantar. Precisamos aproveitar esse bom momento. Ocorre que uma eleição da Academia não pode ser uma disputa de vida e morte, a gente pode conciliar as forças. Quando avisei a um amigo que iria me candidatar, ele me avisou – Lorenzo, você sabe que, numa briga dessas, ninguém entra pra perder. Eu mesmo fiquei apreensivo e hoje estou felicíssimo.


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