Grandiosa, Galeria do Pádua abriga mais de 100 obras e um teatro

Com 25 anos, local já recebeu festas LGBT e shows de rock; hoje, luta é para realizar exposições e movimentar a galeria

Na Avenida Miguel Sutil, em Cuiabá, paredes gigantescas, portas altas e janelas circulares escondem mais de 100 obras de arte e um teatro imenso. Com ar de mistério, a Galeria do Pádua chama a atenção de quem passa pela via na Capital.


Logo na entrada, o visitante se depara com uma grande estátua da deusa grega Atena. Porém há uma peculiaridade: ela carrega um jacaré na cabeça.


As paredes também contam uma história por meio de esculturas. Ao lado da grande porta, há um guerreiro dando boas vindas e anunciando a chegada. Também tem uma mulher saudando o sol, que gera a vida.


Há ainda uma escada em caracol que leva até o teatro, no segundo piso, que nunca chegou a ter artistas em seu palco. Com capacidade para 350 pessoas, o local carece de equipamentos essenciais como poltronas, climatização, sistema acústico e elevador.


Descendo por outra escadaria toda decorada, é possível chegar ao térreo, que é dedicado às obras de arte. Diversas esculturas de argila com influências romanas, asiáticas, religiosas e abstratas ocupam os espaços. No teto, existem anjos observando aqueles que ousam entrar na galeria.


Nos fundos da galeria, mais beleza: um imenso jardim com esculturas clássicas e contemporâneas, além de uma vista para o Parque Mãe Bonifácia. Pequenos macacos são os clientes mais assíduos do local.


Todos os espaços são conectados por alguma escada ou corredor. Como som de fundo do prédio, apenas o barulho do trânsito da grande avenida.


Pádua Nobre, proprietário e artista da galeria, construiu o prédio do zero em 1993. Hoje, a curiosidade é o que continua movimentando o local.


“Aqui do lado tem uma borracharia e quando eles vêm consertar o carro e não tem o que fazer, entram aqui. O borracheiro tem uma contribuição extraordinária”, brincou.


Além dos clientes trazidos pela oficina mecânica, os acompanhantes de pacientes do hospital localizado em frente também procuram descobrir os segredos da grande construção.


Mas há também outros tipos de clientes que se perdem entre as paredes de 7 metros de altura.


“Tem clientes que vêm de fora, de outros estados, outros países. Eu deixo a porta aberta para todo mundo entrar mesmo”, expôs Pádua.


25 anos de história


Ele contou que comprou o terreno quando ainda era desvalorizado e a região, considerada periférica.


“Não valia nada, aqui era um terreno perimetral. Era ainda uma avenida muito acanhada e não tinha muitas perspectivas”, relembrou.


O processo foi todo realizado por uma empresa de engenharia. O artista realizou a parte de ornamento da galeria.


O corrimão interno foi todo decorado por Pádua. Ele esculpiu diversas pessoas abraçadas representando o público do teatro.


O objetivo era criar um teatro com uma galeria, mas o local acabou sediando inúmeras festas e shows no início dos anos 2000.


“A proposta da galeria é um teatro na parte de cima e embaixo, a galeria de arte. A ideia era fazer exposição embaixo enquanto o povo do teatro ficava esperando”, explicou Pádua.


A primeira parceria foi com o empresário Menotti Griggi. Ele foi o responsável por organizar festas voltadas para a comunidade LGBT na Galeria do Pádua.


“Eles ficaram um ano fazendo essas festas. Dez anos atrás. Ai depois eles saíram e construíram a boate Zum Zum, perto do Choppão”.


Logo depois, outro movimento passou a usar o espaço para realizar shows de rock. Bandas como Vanguart chegaram a se apresentar dentro da galeria. Com isso, o que era para ser uma galeria de arte acabou ganhando a fama de boate.


No entanto, o artista disse que viveu bons momentos e nunca teve problemas com o público. Ele ainda afirmou que sempre gostou da pluralidade dos frequentadores dos eventos.


“Foi um período muito divertido. Essa rua era linda. Começava a aparecer aquele pessoal todo de preto, bem rock, bem rebelde. Essas pessoas nunca trouxeram problemas. Eles adoravam a casa e ficavam aqui. Era uma galeria que tinha muita diversidade, assim como é a minha cabeça”, afirmou.


O local também serviu para casamentos, aniversários e até mesmo velórios.


“Não sou artista”


Nobre nasceu no Ceará e sua família não tinha recursos para comprar brinquedos. Diante disso, ele passou a construir os próprios brinquedos.


“Fazia com argila o jacaré, o boi, galinha. Fazia os animais que eu conhecia”, afirmou.


Ele aprendeu a fazer pequenos tijolos ao ver seu pai construindo a casa onde moravam. Então, o artista passou a reproduzir o trabalho do pai.


Sua família também tinha uma veia artística muito forte, porém voltada para a música. Eles foram grandes forrozeiros.


Apesar disso, Pádua acredita que já nasceu com a arte, que o seu talento é natural e sua vida foi construída nesse caminho.


“Acho que minha vida foi toda voltada para a arte, desde criança que eu gosto. Ainda rapazinho eu já me interessava pelos museus, tudo o que era relacionado com a arte”, revelou.


No entanto, ele tem resistência com o termo “artista”. Nobre não acredita que é artista. Ele disse que não passou pelo processo de se transformar em artista.


“Sempre fui muito sensível à arte, mas nunca me vi como artista. Para mim foi um processo tão natural. Foi assim toda a minha vida. Até hoje, não carrego esse rótulo de artista”.


Em 1981, Pádua se formou em artes pela Universidade do Rio de Janeiro (Unirio). Ele contou que sua paixão sempre foi o teatro e o movimento. E é isso que inspira suas esculturas.

“Toda a vida eu gostei muito da dança, do movimento, do corpo. Isso me fascina”, afirmou.


No ano seguinte, o artista se mudou para Cuiabá. Ele veio apenas a passeio, mas percebeu que a cidade poderia ser uma oportunidade para expandir a sua arte. Assim, decidiu se mudar para a Capital mato-grossense aos 30 anos.


Entretanto, o jovem artista encontrou diversas dificuldades em vender suas esculturas por ser novo na cidade.


“Eu já tinha um mercado no Rio de Janeiro, mas eu trabalhava aqui e levava para lá a minha produção. Eu fiquei durante um ano trabalhando e levando a produção para o Rio de Janeiro. Vendia todo o trabalho lá”, relembrou.


Depois de muito esforço, Nobre foi sendo descoberto por decoradores e conseguiu ganhar espaço nas paredes de empresários muito conhecidos.


Aos 60 anos, Pádua lamenta a pequena lista de clientes. O movimento foi diminuindo cada vez mais com o passar do tempo. Ele relatou que ainda mantém alguns clientes antigos, porém precisa trazer novos públicos.


Segundo ele, é essencial que uma galeria de arte realize exposições para manter a movimentação. E esse é o novo desafio que o artista passa a enfrentar.







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Neila Barreto

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