Literatura de MT atinge novo patamar, dizem editor e escritoras

Obras de Marli Walker e Marta Cocco deverão ser distribuídas em escolas públicas de todo País

A inédita seleção de duas obras de autoras de Mato Grosso pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Educação, é um divisor de águas para a literatura produzida no Estado. A opinião é de Ramon Carlini, sócio-proprietário da editora Carlini & Caniato e responsável pela publicação das duas obras.


Os livros selecionados são “Apesar do Amor”, da escritora Marli Walker, e “SaBichões”, de Marta Cocco.


“Estamos há vinte anos tentando isso. Nunca houve um livro que fosse selecionado para o PNDL. O Ministério da Educação nunca valorizou a produção editorial do Estado. Pela primeira vez a literatura brasileira produzida em Mato Grosso está sendo valorizada. É um momento histórico. É um divisor de águas”, diz Carlini.


A perspectiva é que o cenário literário no Estado melhore com a projeção dos livros e das escritoras nacionalmente.


“Daqui para frente, só vai melhorar porque a gente sabe que nós temos valores. A partir do momento que saiu o resultado, todo o meu complexo de vira-latas foi por água abaixo. Agora nós existimos”, comemora o editor.


Professora do Instituto Federal de Mato Grosso e com doutorado em Estudos Literários pela Universidade de Brasília, Marli atribui a seleção das obras, em parte, a um momento de intensa produção da literatura de Mato Grosso.


“Eu percebo um ‘boom’ literário, uma efervescência acontecendo neste momento. Há muitos escritores jovens surgindo, e disputando, com uma literatura muito boa. Parece que estamos em ebulição”, diz Marli, que está em seu terceiro livro.


Marli também comemora o fato de o Ministério da Educação ter escolhido obras de duas mulheres. “A mulher é um pouco preterida na literatura, não somente em Mato Grosso, mas no Brasil e no Mundo. E essa seleção do Ministério é inquestionável, isenta, sem lobby”, diz.


Embora cite outros bons momentos da história recente da literatura de Mato Grosso, Marta Cocco também percebe um movimento crescente no Estado atualmente.


Parte dessa nova etapa ela atribui à gestão do advogado e escritor Eduardo Mahon à frente da Academia Mato-Grossense de Letras.


“Quando Eduardo Mahon assume a presidência da Academia, ele percebe que ela precisava passar por uma revitalização, que havia muita gente boa da literatura fora da Academia. Então, ele fez um esforço para convencer esses escritores a se candidatar. Lá dentro, esse grupo se uniu. Hoje temos um grupo para além da academia. Temos um grupo de gente jovem que está se juntando aos mais velhos, que estão na estrada há mais tempo”, avalia Marta, que é professora da Unemat, doutora em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás e membro da Academia.


A escritora ainda cita outros dois fatores que podem ter contribuído para o bom momento literário. Um no campo da “inspiração” e outro no estudo e incentivo à cultura.


“O Mundo e o Brasil estão vivendo um momento muito tenso. E o artista, nesta hora, fica muito sensível. O resultado da união desta tensão com esta sensibilidade é uma grande produção [artística]. Estamos vivendo um momento de bastante produção e efervescência, sim”, diz.


Paralelo a esse momento, o incentivo dado pelas universidade públicas também tem um papel importante, conforme diz a escritora.


“A UFMT, com o Mestrado em Linguagem, e a Unemat têm, através de professores e autores, se dedicado à produção daqui. Isso também tem encorpado esse movimento”, conta a autora.


Com a inclusão no PNDL, os livros deverão ser adquiridos pelo Governo Federal e destinados a escolas e bibliotecas públicas em todo o País. Assim, Ramon Carlini acredita que a tiragem possa atingir até mesmo as 70 mil cópias de cada título. Esse número, para o mercado editorial brasileiro, é gigantesco.


“Eu ficaria muito feliz, que mesmo sem ter a força das grandes editoras, se conseguirmos chegar a casa de 70 mil exemplares. Nunca nenhum livro nosso chegou a esse número. E eu falo que não é pelo dinheiro, é por saber que temos algo de qualidade que pode estar nas escolas”, disse.


Publicações




O livro “Apesar do Amor” conta com 50 poemas sublinham o contraste entre a fartura e a fome. Conforme a autora, é um convite ao adolescentes a se formarem como leitores críticos e conscientes.


“O que eu sinto é alegria e gratidão, por pensar que algo que eu escrevo pode tocar um adolescente, um jovem, pode humanizá-lo pela experiência do texto literário, muito dentro daquilo que a literatura é para mim”, conta Marli.


Já os poemas infantis de Marta, ilustrados por Vanessa Prezoto, destacam a habilidade de animais dos biomas brasileiros, fazendo uso de um divertido jogo de imagens poéticas e sons.


O livro estimula a criatividade e a afetividade das crianças diante do meio ambiente.


“Esse livro é para crianças em fase de alfabetização e alfabetizadas e que procura mostrar a elas que é possível fazer poesia a partir daquilo que os animais já sabem fazer, já nascem sabendo fazer – por isso eu chamo os animais de sabichões”, conta.


“Eu brinco com as palavras, faço jogos com a linguagem, para que desde pequeninha ela vá se tornando uma leitora competente, no sentido de perceber que a linguagem brinca. É possível brincar com as palavras”.


Cocco destaca a importância da literatura e da presença dos livros no dia-a-dia. “Quando falamos em qualidade de vida, poucas pessoas têm noção de que qualidade de vida ultrapassa aquela noção de ter uma casa digna, uma dignidade no trabalho, de poder pagar suas próprias contas. A dignidade é ter possibilidade de se aprimorar como ser humano”, conta.


Saiba um pouco mais sobre os livros:


“Apesar do Amor” – Marli Walker


Apesar do amor enuncia, em 50 poemas curtos, um ser humano que sobrevive à margem da vida que germina nos campos. As sementes, a terra, a mãe, o menino e seus destinos incertos são imagens de desalento e fome, apesar do amor. Com sensibilidade e capacidade de síntese, a autora convida o leitor a refletir sobre os contrastes que coexistem no Brasil, propiciando aos estudantes uma leitura crítica do lugar onde vivemos e da realidade sob a perspectiva do outro.


“SaBichões” – Marta Cocco


Em SaBichões, a autora mostra às crianças, cada vez mais inteligentes e curiosas, que ainda há muita poesia no óbvio e aos adultos, que é óbvio que a criança dentro deles ainda gosta de brincar com poesia. Observa-se, nos textos, a presença de recursos de sonoridade, além de figuras como ironia, antíteses e muita ludicidade para que as crianças aprendam se divertindo e desenvolvendo afetividade pelos animais.


SaBichões contém 14 haicais (um poema de três versos, mas sem o rigor métrico do modelo japonês). Das memórias de infância e dos biomas brasileiros foram escolhidos os animais, todos bichos sabidos, pois fazem coisas incríveis desde a manhazinha até a noite, embalados por ilustrações que interagem com o texto e levam a imaginação para além!




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